Anfíbios e Répteis

Artigo escrito pelo Prof. Dr. Eduardo G. Crespo

A herpetologia é a área científica dedicada ao estudo dos anfíbios e dos répteis, tendo origem há quase dois séculos. Desde então, os herpetológos não têm cessado de fornecer contributos que fizeram com que esta seja actualmente uma das áreas da zoologia com maior crescimento.

Origem e evolução

Os anfíbios, e depois os répteis, foram os primeiros Vertebrados a colonizar o meio terrestre e deles descendem as aves e os mamíferos, incluindo, naturalmente, o próprio Homem.

Os anfíbios derivam de um grupo de peixes do Devónico Médio (há cerca de 400 milhões de anos), próximo dos actuais Latimeria chalumnae (Crossopterígio) e dos Dipnóicos. A capacidade de colonização do meio terrestre pelos anfíbios, associada à falta de competição existente em terra, permitiu-lhes uma grande radiação espacial e morfológica. Conhecem-se, assim, dois períodos de radiação separados por um período com uma baixa diversidade de espécies. A primeira destas radiações ocorreu durante o Paleozóico superior até ao Triássico superior, e teve a sua expressão máxima durante o período Carbonífero (345-280 MA). È provável que diminuição observada na diversidade de anfíbios após este período (i.e. no Jurássico inferior) tenha ocorrido devido à competição com os répteis. O segundo período de radiação corresponde ao aparecimento das formas modernas do grupo (os Lissamphibia), de tamanho pequeno e hábitos crípticos, que não entram em competição directa com os répteis. Este período ter-se-á iniciado no final do Jurássico e estendeu-se até à actualidade.

A origem dos répteis remonta ao fim do Carbonífero (há 300 MA). O desenvolvimento do ovo amniótico, isolado do meio exterior, constituiu uma adaptação chave na conquista do meio terrestre. Este factor foi primordial para a expansão dos répteis, que atingiu o seu ponto máximo durante o Jurássico, altura em que terão existido 17 ordens. No entanto, no final do Cretácio (há cerca de 65 MA), estes animais sofreram uma forte regressão. A queda de um grande meteorito, que teria provocado a obstrução da luz solar devido a poeiras enviadas para a atmosfera e o consequente arrefecimento global do globo, é apontada como a principal causa da extinção de numerosas formas reptilianas. Apenas 4 ordens terão conseguido subsistir a este período chegando até aos dias de hoje.

Biologia

Do ponto de vista biológico, o que fundamentalmente distingue os anfíbios e os répteis dos outros Vertebrados mais evolucionados, aves e mamíferos, é a sua fisiologia ectotérmica, isto é, a sua dependência de fontes de calor externas (energia solar) para o normal desenvolvimento dos seus processos vitais. Nos animais endotérmicos, a energia de que necessitam resulta de processos metabólicos internos. Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a fisiologia ectotérmica em nada diminui o sucesso adaptativo destes animais e permite-lhes mesmo ocupar uma variedade de ambientes e resistir a situações de stress ambiental, que frequentemente os endotérmicos não conseguem. Nesta perspectiva estão mais aptos a viverem em ambientes com fluxos energéticos relativamente baixos, em particular, onde existem marcadas flutuações sazonais de disponibilidade alimentar.

Este tipo de fisiologia permite-lhes aproveitarem uma percentagem muito elevada dos alimentos que consomem para produção de massa corporal, sendo produtores secundários de biomassa muito importantes para os ecossistemas terrestres, só comparáveis aos insectos. É ainda a fisiologia ectotérmica que lhes determina muitas das suas características morfológicas e comportamentais- A tendência para apresentarem reduzidas dimensões, sedentarismo, pequenos nichos territoriais, elevadas densidades locais, lentas taxas de crescimento, tardia idade de aquisição de maturação sexual, as estratégias de procura/captura de presas, etc.

Nos anfíbios, o principal problema com que se confrontam no meio terrestre é o da luta contra a perda de água, tanto no que respeita à do seu próprio organismo, pouco protegido (pele nua), como pela dessecação dos habitats aquáticos de que dependem para a reprodução e desenvolvimento embrionário e larvar. Nos répteis, assume maior relevância a necessidade da existência de disponibilidades térmicas adequadas. Para muitos deles, os seus elevados níveis de actividade, relacionados sobretudo com as suas diferentes estratégias de procura/captura de presas, impõe-lhes processos de termorregulação mais elaborados. Pode portanto considerar-se que, globalmente, os anfíbios estão sobretudo dependentes da disponibilidade de água, e os répteis de fontes caloríficas externas adequadas.

Conservação

De uma maneira geral, os anfíbios e os répteis são animais pouco estimados pela nossa sociedade. Devido a falsos mitos e antigas crenças, é-lhes atribuída uma perigosidade que está longe de se verificar. Isto, claro, já vem de longe, e observa-se sobretudo nas culturas de base judaico-cristã. Basta recordar os mitos da Serpente do Paraíso e do Pecado Original. Foram assim transformados em símbolos do Mal, do Inferno e da Tortura. Foram, e ainda são, a base privilegiada dos ingredientes de Feitiços e Bruxarias. Estes preconceitos têm naturalmente tornado difícil a sensibilização das populações para a necessidade de os conservar.

Hoje, contudo, esta situação está em vias de começar a reverter-se. Portugal ratificou e regulamentou a Convenção de Berna (Decreto-Lei 95/81 e DL 316/89) que inclui e protege nos seus anexos II e III todas as espécies da nossa herpetofauna. O Convénio de Washington/CITES também ratificado e regulamentado (DL 50/80 e DL 114/90), veio por sua vez cobrir o comércio de camaleões e tartarugas marinhas. Desta maneira existe agora em Portugal legislação regulamentadora, de origem internacional, relativa à interdição da captura, detenção e comércio de anfíbios e répteis. Como legislação mais particular há ainda a referir os Decretos Regionais das Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores que protegem as taratrugas marinhas nos seus mares (Decretos Regionais 2/83/A, 18/85/M e 6/86/M).

No que respeita aos estatutos de conservação atribuidos às espécies portuguesas, o "Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal" atribui a todos os nossos anfíbios a categoria de NT (não ameaçados), à excepção dos casos de Chioglossa lusitanica e Triturus helveticus a quem é atribuida a categoria de K (insuficientemente conhecidos). Em relação aos répteis os que não estão incluidos na categoria NT, são apenas: Emys orbicularis, Hemidactylus turcicus, Tarentola bischoffi (Madeira), Macroprotodon cucullatus e Chamaeleo chamaeleon, todos com a categoria de K; Lacerta monticola e Vipera seoanei, com a categoria de R (raros) e Vipera latastei, com a categoria de I (indeterminado). A categoria de V (vulnerável) é atribuida às tartarugas marinhas, Lepidochelys kempi (Açores) e Dermochelys coriacea e Caretta caretta (águas de Portugal Continental).

Embora os anfíbios e os répteis apresentem diferentes modos de vida (por exemplo, os anfíbios passam por uma fase de desenvolvimento larvar, encontram-se, por isso, muito mais sensíveis a alterações aos meios aquáticos), as principais ameaças que afectam estes animais são, no entanto, basicamente semelhantes, e podem referir-se, por ordem decrescente do seu impacto negativo, como devidas a:

  1. Alteração, destruição ou fragmentação dos seus habitats naturais - expansão urbanística, destruição de zonas húmidas, canalização de cursos de água, cultivo intensivo de árvores exóticas (pinheiros e eucaliptos), etc.;
  2. Contaminação das massas de água por poluentes urbanos, industriais e agrícolas;
  3. Construção de barragens e rodovias;
  4. Introdução de espécies exóticas - peixes carnívoros, lagostim-vermelho-da-Louisiana, tartaruga-da-Flórida; em certos casos , cães e gatos;
  5. Capturas - para coleccionismo, consumo e estudo;
  6. Extermínio deliberado.

A acrescentar a todas estas ameaças, vários problemas a nível global têm vindo a afectar numerosas populações de anfíbios, entre os quais se destacam o aparecimento de doenças (como o fungo cítrico), o aquecimento global, a diminuição da camada de ozono e as chuvas ácidas.
As acções concretas para se fazer face a estas ameaças e contribuir de maneira mais eficaz para a conservação da nossa herpetofauna, passam prioritariamente pela educação, tanto a nível escolar como do público em geral. É necessário desfazer muitos dos mitos e falsas crenças que tanto têm penalizado estes grupos de animais, chamando a atenção para a sua importância ecológica, elevado valor biológico, curiosos comportamentos e beleza das suas formas e cores.
Por fim, há que fomentar e apoiar todas as iniciativas visem a divulgação dos nossos répteis e anfíbios, através de palestras, exposições fotográficas, publicações, etc., missão em que a Sociedade Portuguesa de Herpetologia se orgulha de participar activamente.

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